Júlia Labourdonnay, Viscondessa de Sistelo: uma vida entre a paisagem e a liberdade

Para além da paisagem: identidade e criação

Quando pensamos em Sistelo, a imagem que surge é quase sempre a da paisagem: os socalcos verdes, a arquitetura vernacular, o equilíbrio delicado entre o trabalho humano e a natureza. Mas a história deste território não se faz apenas de pedra e terra. Faz-se também de pessoas — algumas inesperadas — que, a partir de um lugar aparentemente periférico, se ligaram ao mundo de forma profunda e singular.
É o caso de Júlia Labourdonnay, Viscondessa de Sistelo, uma mulher que atravessou geografias, convenções sociais e fronteiras artísticas no final do século XIX e início do século XX.

Entre o Minho, o Brasil e Paris: uma trajetória internacional

Nascida no Rio de Janeiro em 1853, Júlia Labourdonnay tinha raízes familiares em Sistelo, onde viria a receber o título de Viscondessa. Viúva ainda jovem, numa época em que a condição feminina era fortemente limitada pela dependência económica e social, escolheu um caminho pouco comum: investir na sua formação artística e construir uma carreira própria.
Essa decisão revela um espírito de independência e audácia raro no seu tempo. Em vez de aceitar um papel passivo, Júlia procurou o espaço onde a arte se aprendia, se disputava e se afirmava. Esse espaço foi Paris.

Uma artista portuguesa no circuito artístico internacional

Paris não era para Júlia uma cidade idealizada, mas um lugar concreto de trabalho. Estudou na Académie Julian, uma das poucas instituições que aceitava mulheres, e integrou o circuito dos Salons parisienses, expondo regularmente ao lado de artistas internacionais.
Participou também na Exposição Universal de 1900, no Pavilhão de Portugal, num momento em que a arte funcionava como afirmação cultural e política das nações. A sua presença nesses contextos mostra que Júlia não foi uma figura marginal, mas parte ativa da vida artística do seu tempo.

Naturalismo sensível e afirmação feminina na arte

A sua pintura inscreve-se num naturalismo sensível, com afinidades impressionistas, atento à luz, à paisagem e à vida quotidiana. Não foi uma artista de rutura radical, mas isso não diminui a importância do seu percurso. Pelo contrário: o seu trabalho ajuda a compreender os caminhos possíveis — e muitas vezes invisibilizados — das mulheres num sistema artístico profundamente masculino.
Júlia expôs também com a Union des Femmes Peintres et Sculpteurs, associação pioneira na defesa do trabalho artístico feminino. Afirmava, na prática, uma posição que hoje podemos ler como emancipadora, mesmo que o vocabulário político da época fosse outro. A sua vida parisiense foi marcada por essa tensão entre integração e afirmação: fazer parte de um meio exigente sem abdicar da sua identidade e autonomia. Júlia Labourdonnay não foi apenas “a Viscondessa”, nem apenas “a pintora”; foi uma mulher que construiu um espaço próprio num mundo que raramente o concedia.

Porquê Júlia Labourdonnay em Sistelo hoje

Mas qual é a relevância de Júlia Labourdonnay hoje? E por que motivo Sistelo lhe dedica uma Sala de Exposições na Casa do Castelo / Centro Interpretativo da Paisagem?
A resposta passa pela necessidade contemporânea de rever narrativas. Recuperar figuras como Júlia é um exercício de justiça histórica, mas também um gesto atual. A sua história cruza temas centrais do nosso tempo: mobilidade cultural, emancipação feminina, acesso à educação, circulação entre o local e o global.
Num momento em que procuramos referências femininas do passado que dialoguem com os desafios do presente, a sua vida oferece matéria para reflexão sem idealizações fáceis.

Paisagem cultural, não apenas visual

Para Sistelo, esta ligação representa mais do que uma homenagem simbólica. É uma forma de enriquecer a leitura do território, mostrando que a paisagem não é apenas natural, mas também cultural e humana.
Integrar Júlia Labourdonnay na narrativa local permite diversificar a experiência de quem visita a aldeia, acrescentando camadas de significado que vão além da contemplação visual. Arte, história e paisagem passam a dialogar.
Ao valorizar esta figura, Sistelo afirma-se não só como um lugar preservado, mas como um lugar pensante — consciente da sua memória e capaz de a projetar para o futuro.

Uma narrativa surpreendentemente atual

Para Sistelo, esta ligação representa mais do que uma homenagem simbólica. É uma forma de enriquecer a leitura do território, mostrando que a paisagem não é apenas natural, mas também cultural e humana.
Integrar Júlia Labourdonnay na narrativa local permite diversificar a experiência de quem visita a aldeia, acrescentando camadas de significado que vão além da contemplação visual. Arte, história e paisagem passam a dialogar.
Ao valorizar esta figura, Sistelo afirma-se não só como um lugar preservado, mas como um lugar pensante — consciente da sua memória e capaz de a projetar para o futuro.

A história de Júlia Labourdonnay lembra-nos que até os territórios mais pequenos podem estar ligados a histórias grandes, complexas e inspiradoras. E que sustentabilidade cultural também passa por reconhecer, cuidar e reinterpretar essas ligações.

Num mundo que procura novos equilíbrios entre tradição e inovação, talvez seja precisamente neste cruzamento entre uma aldeia minhota e uma mulher cosmopolita do século XIX que encontramos uma narrativa inesperadamente atual.

Carlos Afonso

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